Um velório e três causos – parte 2: maldição da família

Um velório e três causos – parte 2: maldição da família

Lembram que eu disse que 2015 teve quatro velórios? Então, papai foi o último. Antes de entrarmos no velório dele, vamos dar um passinho para trás para contextualizar.

A primeira baixa foi em janeiro, uma matrona, tia Jaque, irmã da minha mãe. A pessoa de maior coração na família e, talvez, menos juízo. Figuraça. Tirava a roupa do corpo para te dar se você pedisse e nunca deixou um centavo guardado. No Natal, assava panetones caseiros de tamanho miniatura para agradar cada um dos filhos e sobrinhos – o do meu irmão tinha gotas extras de chocolate, o meu tinha frutas cristalizadas e cereja.

Ganhou a fama de highlander na família, porque já tinha ameaçado nos deixar algumas vezes. Essa mulher chegou a ficar um mês em coma na Alemanha. Acredita? Foi passear, o pulmão colapsou no avião, ela só conheceu Munique pela janela da ambulância. Mas voltou com história pra contar. Ela era assim.

Segunda perda, minha madrinha, também irmã de mamãe, tia Gete. Junho, no dia da festa junina do meu filho. Era a irmã mais velha, e a gente acha que rolou um ciúme por a irmã Jaque estar sozinha do outro lado com nossa vó Salime. As duas sempre disputaram a atenção da mãe. Tia Gete era uma pessoa de sentimentos exacerbados e sempre claros no rosto dela.

Tinha sempre uma lembrancinha em mãos para a criançada, vestia branco toda sexta-feira, adorava receber gente em casa, tinha dois filhos homens e pediu para ser minha madrinha, para ter uma menina também. Nunca nos deu susto algum, foi para o hospital com uma crise respiratória, foi para a UTI e… não voltou. Pouco antes de se internar, mandou uma mensagem para meu pai: “Gersão, melhora logo, que a gente vai tomar uma cerveja.” Minha mãe ainda guarda essa mensagem no celular.

A perda seguinte já foi mais esperada. Desta vez, é do lado do meu pai. Em setembro, minha vó dormia calmamente no sofá da sala da minha tia e não acordou. Ela estava nos deixando lentamente há anos. Alzheimer e mais um monte de coisas mal diagnosticadas. Culpa de ninguém, minha vó não compartilhava mais seus sintomas.

Dona Theresinha era xará não ortográfica de mamãe, fazia um empadão de camarão que era uma coisa de louco, gostava de mentir sobre sua idade e demorou muito a aceitar que a gente a chamasse de “vó”. Quando meu filho nasceu, curtiu demais ser bisa. Vai entender.

Voltamos a novembro. Quarta perda. Meu núcleo. A noite do dia 04 se estendeu até virar o dia 05, data do velório. Noite agitada de vai e vem. Dormi pouco mais de uma hora e fomos para o cemitério. Receber gente em velório é curioso. As pessoas, definitivamente, não sabem o que dizer. Vou dar uma dica para que não tropecem nas próprias línguas: não consolem, ofereçam um abraço, se disponham a ajudar e a ouvir. Eu acho uma boa saída.

Mas meu conselho veio tardio. Aquele ano de tantas mortes ficou apelidado, na boataria familiar, como “maldição”. E uma pessoa, provavelmente com medo da praga, veio falar comigo: “Ah, essa maldição da família não vai passar lá em casa, né? Porque já sofremos demais quando descobrimos que o fulano ia se divorciar.”

Olhei para o tal fulano, cujo nome escondo para preservar a união familiar. Um querido. A família toda é muito querida. Mas a comparação… Fulano estava sorrindo, sentado dentro da sala de velório, cheio de saúde. Com uma noite mal-dormida e a poucos metros do caixão do meu pai, qualquer um me perdoaria a falta de classe. Eu, contrariando o mundo e a fama de grossa, mantive a calma naquele momento assim como mantenho agora, muda, não revelando o nome do autor da frase.

Se tem algo que muita gente na família tem em comum, é o coração enorme. Mas a boca sempre foi igualmente grande. Acontece…

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