Um velório e três causos – parte 3: a oração

Um velório e três causos – parte 3: a oração

Tem dois momentos particularmente dolorosos num velório: o fechamento do caixão e o enterro em si. São muito finais. Você nunca mais vai tocar naquela pessoa, nunca mais vai vê-la. A afirmação é dramática, mas é verdade.

A “vantagem” de descobrir que seu pai vai morrer é ter um tempo para se preparar para o adeus. Eu escrevo. É o que estou fazendo agora, inclusive. Então, no hospital mesmo, nos dias de UTI, comecei a escrever a despedida que nos trouxe ao último causo desta trilogia sobre o velório.

Meu escrito era uma espécie de eulogia. E eu queria muito ler para ele o que tinha escrito. Era meu tributo, fazendo o que sei fazer bem. Meu irmão, por outro lado, é excelente com leituras de evangelho e falas para reflexão sobre ele, prática de muitas manhãs no centro espírita.

Achamos que combinaria: nosso pai ouviria, antes de o caixão se fechar, as vozes dos dois filhos dele, com um pouco do melhor de ambos. Minha mãe assentiu, tocamos com o plano: eu abriria, lendo meu texto, passaria a palavra para ele, que falaria um pouco sobre vida e morte, de acordo com o evangelho, puxaria o pai nosso, de praxe e adequado. E seguiríamos para o adeus.

Velório cheio, todas as pessoas cumprimentadas, a mesma história contada e recontada mil vezes, chegou a hora de dizer as última palavras. Eu estava com minhas anotações em mãos. Meu irmão, firme do meu lado.

Comecei:

“Meu pai fez dois pedidos para a gente atender agora: não chorar e transformar esse momento numa festa. Ele também queria que tivesse um cooler de cerveja aqui, mas minha mãe achou exagero.

Obviamente, não conseguimos não chorar. Mesmo assim, vamos tentar terminar de forma positiva. Isso porque meu pai era, como muitos aqui sabem, um cara incrível. Era o cara que ficava fazendo bagunça com a gente quando minha mãe trabalhava à noite. Que tinha sempre uma piada, um sorriso largo para oferecer e respondia que estava tudo bem. Ensinou isso pra gente.

Agora, algo que vocês talvez não saibam é que ele sempre conseguia lugar na porta para estacionar, mas pegava todos os faróis vermelhos no caminho. Eu honestamente trocaria todos os faróis verdes do mundo por tê-lo aqui com a gente, só que isso não é possível. Então, preciso fazer o que ele me pediu e pedir para vocês fazerem o mesmo: desejem comigo que ele vá em paz.

Se ele teve que ir, que vá pra luz, que vá descansar, porque ele lutou tudo que podia e mais um pouco, como fez a vida inteira por nós, para nos dar o melhor. É nossa vez de retribuir, desejando que ele encontre a paz merecida e que vá sabendo que a missão dele aqui foi muito bem cumprida.

Pode não ser a festa que você pediu agora, mas acho que conseguimos um festival de boas energias para ajudar você a encontrar descanso e serenidade.

Pai,obrigada por tudo. Vá tranquilo sabendo que a gente vai se cuidar com o mesmo amor com que você cuidou de nós. Vamos continuar te amando para sempre e…”

Do fundo do salão do velório, vem uma voz, alta: “Pai nosso que estais no céu…”

Uma voz que me cortou, que tirou a chance do meu irmão sequer começar a dizer seu adeus. A prima (até então não sabida) carola do pai deve ter ficado inconformada com a ausência de um padre e puxou o Pai Nosso no meio da minha eulogia!

Alguns segundos de hesitação. Eu olhei incrédula. Meu irmão ficou sem ação. Dessa vez, eu ia falar! Ele me segurou e continuou: “Santificado seja o vosso nome.”

O salão seguiu em uníssono: “Venha a nós o vosso reino.” Eu cedi: “Seja feita a vossa vontade”.

Não sei se ela percebe até hoje o que fez. Sei que nunca mais vi. E ainda não esqueci.

“Mas, Vanessa, por que contar essas coisas?” Olha a descrição do blog, escrever, para mim, é terapia, sabe? Contando para você, eu tento te entreter e, em vez de ficar carregando as histórias, deixo aqui para visitar. Também me disseram (embora eu tenha cá minhas dúvidas) que compartilhar experiências assim pode ajudar quem passa por isso. (Será? Se for seu caso, me conta?)

Tudo tem seu tempo, e o tempo, de fato, ajuda em muitas coisas. Todas essas histórias precisaram de tempo para poderem sair só das lembranças e virem para o registro escrito. Por outro lado, nunca digam para alguém que perdeu um querido que o tempo ajuda. Tempo nenhum desse mundo leva embora a saudade. Nem a lembrança de uma eulogia entrecortada. Amém.

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