AAJ* – Por que você não bebe?

AAJ* – Por que você não bebe?

“Vanessa, por que você não bebe?”

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Já era costume nosso em 1979 receber gente em casa. Quer dizer, deles. Porque eu era só um bebê. Mamãe, grávida de meu irmão, e papai, no alto de seus quase 30, adoravam entreter, e viviam convidando casais amigos para um drinque – em casa, porque, bom, eu era nenê, e meu pai não curtia me deixar com minha avó.

Numa noite quente de setembro, essa cena comum se repetiu. Um casal de amigos deles parou em casa para um aperitivo. Mamãe ficou na água. Papai, na época, era afeito ao uísque, bebida que o marido amigo compartilhou. A esposa amiga elegeu a cerveja mesmo. Os quatro sentados no balcão de madeira com banquetas que servia como barzinho na sala.

Foram algumas boas horas de copos esvaziando e enchendo, gelo sendo servido, tanto para a água quanto para o uísque, conversas sobre política (rasas), sobre futebol (profundas), piadas (pré-anos 80 – perderam a graça ou são censuradas hoje) e sobre a perspectiva do segundo filho. Eu, bebê comportada que era, mal me fiz notar ali. Só explorava a sala curiosa com meu andador.

Sim, naquela época, ainda usávamos andadores! Meu andador era educativo também, sabe? Tinha como assento alças que pareciam uma cueca onde o bebê era encaixado, um encosto de plástico segurando minhas costas e uma bandeja branca para repousar as mãos onde ficava preso uma espécie de ábaco com contas coloridas e chocalho acoplado. Eu passava horas naquilo. Um anjo de criança.

Outra coisa que já era costume nosso então: acompanhar as visitas até o portão. Gentileza que sempre leva a uma esticada naquele papo bom. Quando o casal de amigos anunciou que partiria, papai e mamãe se levantaram para acompanhá-los até o portão baixo de metal branco que dividia a garagem da calçada. Como já era tarde, tinha sereno, e eles decidiram ir sozinhos, me deixando entretida com meu andador, saracuteando pela sala de visitas. Só tiveram o cuidado de, antes, fechar a porta de vidro e ferro que levava para a garagem.

– Foi ótimo!
– Vamos marcar mais vezes, hein?
– Na próxima, lá em casa. Podem levar a boneca, ela é um anjo!
– Só se for antes de o bebê nascer, porque, com dois…
– A vida muda de foco, né?
– Vão com Deus, viu?
– Boa noite!
– Até mais!

Despedida prolongada feita, eles retornam. Hora de encerrar a noite, recolher os copos e ir pra cama. Papai vai seco atrás de seu último gole de uísque da noite. Copo vazio.

– Tereza!
– Oi?
– Que sacanagem, meu! Cê bebeu meu uísque?
– Tá louco? Estou grávida, lembra? Claro que não bebi.
– Tem certeza?
– Óbvio! Você deve ter bebido antes de sairmos com nossos amigos.
– Não bebi, tava guardando pra agora.
– Se não fui eu, nem você, quem…?

Pausa para a constatação óbvia. Eu havia passado horas vendo aqueles copos coloridos de vidro e cristal brilhantes irem e virem com líquidos interessantes. Achei que, se ficou na banqueta, a meu alcance, deveria provar, não?

A essa percepção de que eu havia virado a bebida de meu pai e estava completamente alcoolizada, se seguiu uma discussão sobre me levar ou não ao hospital; se levassem, o que diriam e que imagem negligente passariam; e o que aconteceria depois. Vou avançar pra vocês e contar que não, não fui levada ao hospital. Embora fosse o fim dos anos 70, ainda havia a possibilidade de algum tipo de assistência social ser envolvida. Pra que arriscar? Passariam a noite em vigília.

Na manhã seguinte, eu acordei com dor de cabeça, boca seca, 3 bebês estranho no meu berço, nossas fraldas trocadas e, desde então, é só mais um dia, como sempre no dizemos no AAJ*.

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“Vanessa, por que você não bebe?”
Pego minha ficha AAJ* de 40 anos de sobriedade no bolso, sorrio e digo: “Ah, não gosto.”

*AAJ – Alcóolicos Anônimos Júnior

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