Hora daquela conversa

Hora daquela conversa

Fazia 3 semanas que meu bebê filho tinha começado a namorar. E não havia jeito, chegou a hora de ter AQUELA conversa.

– Alô?
– Oi, Vanessa, aqui é a Rita*. Precisamos conversar.
– Oi, Rita.
– Então, sabe por que eu te liguei?
– O Thales avisou.
– Ah, ele te avisou, é? Que bom.
– Claro.
– Sinal de que conversam.
– É.
– Então, você está sabendo?
– Acho que sim.
– Acha?
– É…
– Vanessa, eles estão transando!
– Sim.
– E eu não sou ingênua.
– U-hum.
– Sabia que isso ia acontecer, e quis ajudar a Ritinha Filha* a se precaver.
– Sei.
– Eles me disseram que usam camisinha.
– É.
– Só que, mesmo assim, a Ritinha anda sintomática.
– Hum.
– Levei ao médico, sabe? E pressionei.
– Hum?
– Ele abriu o jogo, disse que tem doença que pega mesmo usando camisinha, viu?
– Sei…
– Verdade! Tem os pelinhos que ficam no saco do rapaz, sabe? Ali, podem se alojar doenças. Muitas, aliás!
– Ah.
– A gente tem que ver se eles estão se lavando bem, tomando banho direitinho e tudo mais, viu? Aí, pedi um painel completo de exames. Porque fazia… Quanto tempo mesmo, Ritinha? 10 meses? Isso. Fazia 10 meses que a Ritinha não fazia sexo, sabe?
– Hum…
– Isso significa que, se ela tiver alguma coisa… Entende?
– ?
– Só pode ter sido o Thales!
– Hum.
– Então, pedi um painel completo de DSTs. E acho que você tem que saber que o de clamídia voltou inconclusivo.
– U-hum.
– Entendeu?
– Hum?
– Eles têm que se medicar. Não basta usar camisinha.
– Ah.
– Ela está com infecção urinária também. E tem um feridinha no útero.
– Hm.
– Entendo que pode haver uma empolgação na hora do sexo. Mas, sabe, eles precisam se cuidar. Então, já comprei.
– Oi?
– O antibiótico. Pra clamídia. Os dois têm que tomar. O dele tá aqui. Amanhã, ela leva pra ele. Não precisa comprar, viu, querida?
– Ah.
– Fala pra ele tomar e me avisa.
– Então, antibiótico, né?
– É, ele precisa tomar, porque é a saúde dela, e…
– Vou levá-lo ao médico dele, pedir um painel de exames dele e, se constatado, ele toma. Ok?
– Mas, até ele tomar, eles não vão transar. Eu não permito!
– Ok. Boa noite!

Desligo o telefone. Tinha chegado a hora da conversa em que, eu, incrivelmente, seria a pessoa mais contida e adulta na situação. Eu não era a mãe maluca super-protetora, a louca da preocupação, a sem noção ultra-uber-mega-master-zelosa pagando mico. Esse momento tinha chegado. E eu, que adoro falar, fui praticamente monossilábica, nada prolixa, direto ao ponto, sem elevar a voz uma única vez.

PS1 – O quê? Acharam mesmo que eu ia esperar meu moleque estar na faculdade pra falar de sexo? Oxe, estão loucos. Timing, pessoal! Não, essa conversa rolou assim que ele começou a entender.

PS2 – Thales foi ao médico e os exames voltaram zerados. Saúde de ferro. Nenhuma DST, nem clamídia. Passa bem, obrigada. E sempre anda com camisinha. Desde antes da fatídica conversa.

*Rita e Ritinha Filha foram nomes fictícios inspirados no comediante Thiago Ventura. Mas a história, pasmem, é (quase toda) real!

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