Nietzche em crise

Nietzche em crise

Nietzche tinha razão, a vida é mesmo um eterno retorno. Eu não conheci minhas bisavós, ainda assim, sei que elas certamente achavam a geração das minhas avós “perdida”. Minhas avós disseram isso de meus pais. E meus pais, de mim. É assim.

Imagino minha bisavó materna professando o apocalipse quando minha avó Salime, sua filha, mãe da minha mãe, veio para o Brasil como imigrante ilegal. Uma transgressora, refugiada antes de isso ser aceito, escapando com três de suas filhas de uma das muitas guerras na Síria. Isso foi em 1951.

Minha mãe, primeira brasileira nata da família, conta histórias de como a comida era cara para eles e de como, para que ela e minhas tias tivessem uma porção eventual de frutas, minha avó comprava uma maçã e repartia em quatro. A carne, quando tinha, vinha de um carrinho sem refrigeração que biscateava pela rua. Mas valia a pena, a família estava longe das guerras.

Quando mamãe chegou em sua casa com papai, aquele bicho grilo com os botões superiores da camisa aberta, bigode digno de Tom Selleck, correntão de ouro e cabelo até o ombro, minha avó viu toda a perdição instaurada. E ele nem tinha um emprego fixo, sabe? Era o que hoje chamamos de promotor de eventos. Curtia Beatles, botecos e balangandans. Imaginem só. Era o fim.

Claro que a roda não para aí. Esse mesmo senhor meu pai quis morrer de desgosto pela falta de lirismo exibida na música que eu trouxe ao voltar da (batida e clichê) viagem de formatura do colegial, uma fita cassete com os hits de Porto Seguro. Ele não criou a filha ouvindo os reis do Iê Iê Iê e Chico Buarque para entregá-la de mão beijada pro axé. Assim não dá.

Hoje. Lendo notícias de UBS sem vacina, pensando no absurdo que está a conta de luz ou em como anda difícil fazer feira, escuto despautérios fingidos de música vindos do quarto do meu filho. “É funk”, ele me diz, como se nada fosse. Começo a pensar nas vezes em que levei esse menino à sala São Paulo para ver concertos, as peças de teatro, o investimento em escolas. Aí, vem o funk – se for pra estabelecer comparativo, diria que pornô está pra cinema assim como funk está pra música. Começo o sermão sobre e paro… A palavra “looping” me detém.

Parece que, de geração em geração, a gente vai dando um jeito de causar, de tocar o horror na geração anterior, de romper com (ou manter) a tradição. Tipo um filme de sessão da tarde em que a história se repete várias vezes e, pra sair desse vórtex sem fim, é preciso quebrar o encanto – seja se conformando, seja fazendo direito. Qual será? E será tão simples?

Deve ser. Afinal, Nietzche diz que tudo se repete, Burke argumenta que um povo que não conhece sua história está fadado a repeti-la. Entre eles e os filmes de sessão da tarde, acho que conseguimos um meio termo, um bem bolado.

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