“Não quero criança nenhuma comigo!”
Que eu me lembre, essa foi a primeira vez que a perdi. Tinha sido uma briga horrível. A palavra divórcio foi bastante usada: 12 vezes pelas minhas contas, 11 pelas do meu irmão. De qualquer forma, muitas pelas contas dos dois.
Depois de muito drama, gritos e disparos verbais raivosos, sem piedade, veio o interpelo aos filhos, chamando pra fazer parte dessa… hum… conversa?
“Decidam aí, com quem vocês querem ficar?”
Talvez fosse efeito dos anos 80, 90. Talvez fosse o feitio teatral. Talvez fosse um exagerado senso de si e suas próprias necessidades. Talvez fosse apenas ímpeto. De toda forma, a pergunta veio. E dela.
Filha dessa época e ainda devota da imagem maternal como central, tomei toda coragem que cabia em alguém tímido no meio da segunda infância, chamei ela de canto e cochichei um acanhado “quero ficar com você”. Não queria que ele ouvisse.
Perdi. A resposta, sonora, certeira, feita pública sem minha permissão e pro desalento dele, foi o título desse relato aqui: ela não queria criança nenhuma com ela.
O divórcio não veio, ainda bem, porque acho que, depois dessa traição, ele também não ia querer ficar comigo. Sobrevivi a essa. O que eu não sabia, então, é que eu a perderia de novo.
Depois dessa, eu acabei me aproximando dele. A gente era muito parecido no gênio, ainda que com gostos muito diferentes. Os gostos, ele compartilhava com ela: a bagunça, as festas, as cervejas, o viver rodeado de gente. Agora, as piadas, o humor sagaz e sarcástico, as trocas silenciosas de diálogos inteiros, essas eram comigo dali por diante.
De repente, tinha outra pessoa adulta na minha vida. Ela não gostou. “Vai com ele então”, “você gosta mais dele”, “ele é legal, eu sou chata”. A primeira vez, doeu. Quase tanto quanto saber que ela não queria criança nenhuma. Eu não entendi na época. Nem nas 14 vezes seguintes. Ou 37. Ou… Sei lá, meu irmão não contou essas comigo. Só sei que a perdi várias vezes assim, porque, após cada “você gosta mais dele”, se seguia um mar de gelo e distância.
Eu realmente não sei dizer se é porque deveria cuidar mais dela, ou se é porque ela queria mais de mim, ou onde está o problema. Porém, quando eu a escolhi, deixei alguém na mão só pra não ser acolhida de volta. Dizem que a gente também aprende pela dor. Aprendi que não posso dar as costas pro amor de um pelo amor de outro. Amor coabita, ou deveria. Não?
Agora, você se pergunta se eu a perdi por causa dele? Não acho. Porque, depois dele, ouvi isso sobre namorados, amigos, filho, cachorra. Se ela não é a peça principal, ela não é. Ela não quer ser. E eu… bom, eu não tenho isso pra dar pra ela. Minha peça principal sou eu. Assim, sigo perdendo minha mãe.
Não, não, você tem razão. Quem morreu foi mesmo meu pai. Mas ele morreu uma vez só. Por outro lado, já perdi as contas de quantas vezes perdi minha mãe. Via de regra, pra alguém ou algo que dê a ela a atenção que não dou. Não consigo. Eu ainda lembro que ela não quer criança nenhuma com ela, e eu prefiro não me perder de novo.